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O tempo da Medicina

A pandemia do novo Coronavírus tomou o mundo de assalto. Mudou nossa forma de trabalho, nossos relacionamentos familiares, nossos hábitos sociais, nossa noção de tempo. O tempo do vírus causou uma revolução nos serviços de saúde. O tempo da prevenção alterou a percepção da passagem dos dias e os ânimos da população. O tempo da doença fez com que despedidas se tornassem impossíveis.

No entanto, os médicos nunca foram tão valorizados quanto na pandemia. Historicamente, esse profissional já ocupou várias posições aos olhos da sociedade: foi amado e condenado, foi aliado e inimigo, foi vítima e algoz conforme tendências políticas, crises sociais e, até mesmo, francas campanhas de difamação. Agora, diante de uma doença que ainda não foi decifrada, diante de tantas incógnitas, o médico volta a ocupar o centro das atenções.

Esse apreço renovado pelos médicos é extremamente positivo, mas nos causa alguma preocupação. Será que vai continuar depois que a crise passar? Será apenas uma onda? O que podemos fazer para que a sociedade não torne a esquecer que estamos do mesmo lado? Existe uma alternativa: resgatar a qualidade na relação médico-paciente.

Esse relacionamento vem sendo abalado por um sistema de saúde que sacrifica a todos – médicos, pacientes, equipes. A saúde da população tem sido tratada como mercadoria, e, do médico, é esperado que preste atendimento em escala industrial. Agendas lotadas, sobrecarga de trabalho e plantões em série comprometem o tempo valioso que deveria ser dedicado ao paciente, mas são as condições impostas por gestores e contratantes para que possamos exercer nossa profissão.

Ao mesmo tempo, enfrentamos a já cansada questão da falta de estrutura do sistema de saúde como um todo, agora ainda mais abalada por uma doença que assolou o mundo. Como esperar adesão do paciente a um tratamento se não há possibilidade de exames, de encaminhamento a especialista, de referência, até mesmo, de transporte? Os gestores exigem produtividade do médico – como se fosse possível mensurar a Medicina como quem mede a produção de uma fábrica –, mas pouco, ou nada, oferecem em suporte a isso.

Queremos – precisamos – que os médicos tenham melhores condições de trabalho, com local adequado para atendimento, com garantia de privacidade e confidencialidade com seu paciente, com possibilidade de encaminhamento para os demais profissionais da saúde. Mas, acima de tudo, precisamos que o médico tenha tempo para estabelecer um relacionamento, para ouvir e conhecer as verdadeiras necessidades de seu paciente. Tempo para fazer uma boa anamnese, um exame físico adequado, para prestar um atendimento ético. Ou seja, o tempo da Medicina, o tempo de ser médico.

Resgatando o bom relacionamento médico-paciente, podemos fazer com que a população continue vendo esse profissional como peça chave no atendimento e na pesquisa científica e como fonte de informações seguras e éticas não apenas enquanto combatemos a Covid-19, mas sempre. Podemos continuar sendo valorizados como profissionais que unem a ciência e a arte para salvar vidas, para tratar e consolar. Precisamos trabalhar de forma que não seja necessária uma pandemia para que o médico seja valorizado. Enquanto ainda há tempo.

Dr. Carlos Isaia Filho
Presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio Grande do Sul (Cremers)

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