Parasitária. Essa palavra define a prática de abertura desenfreada de escolas e vagas médicas no Brasil. A ganância de universidades, políticos, mantenedoras e outros interessados nas gordas mensalidades garantidas por cursos de Medicina remete à imagem de uma sanguessuga que desconhece limites, alimentando-se sem parar até estourar.
Não basta o Brasil ter ultrapassado 50 mil vagas anuais em Medicina. Ainda querem mais. Num universo no qual temos quase tantas faculdades quanto a Índia — país com mais de 1,4 bilhão de habitantes —, insiste-se em ampliar o número de cursos.
Entre janeiro de 2024 e setembro de 2025, 77 novos cursos foram autorizados, somando 4.412 novas vagas, quase todas em instituições privadas. E querem mais.
A natalidade médica cresceu em ritmo muito superior ao crescimento da população brasileira. Temos quase três médicos por mil habitantes, índice superior ao de países como Estados Unidos e Japão. Em tese, estaria sobrando médico. Ótimo.
Seria ótimo ainda se esses profissionais não permanecessem concentrados nos grandes centros e tivessem meios reais de atuar nas regiões onde, de fato, faltam médicos. Ou alguém ainda acredita na falácia de que abrir uma faculdade no interior resolve o problema da assistência? Está mais do que comprovado que o médico formado em municípios pequenos, assim que tem oportunidade, migra para locais com melhores condições de trabalho, infraestrutura e segurança profissional. Não existe promessa de prefeito que disfarce essa realidade.
Recentemente, o Supremo Tribunal Federal (STF) reafirmou que o Ministério da Educação (MEC) é a única entidade competente para decidir sobre a abertura de faculdades de Medicina.
A decisão freia a prática de liminares judiciais que determinavam, de forma arbitrária, a criação de cursos e a ampliação de vagas. Em tese, a situação deveria se organizar. Ótimo.
Seria ótimo se o próprio MEC não tivesse se transformado num balcão de negócios. Levantamento do Conselho Federal de Medicina demonstrou que quase 80% das cidades com cursos de Medicina não dispõem da estrutura mínima exigida, como hospitais de ensino e número adequado de leitos do SUS. Ainda assim, o MEC continua autorizando cursos e vagas, enquanto os campos de prática seguem saturados. Os dados falam por si.
Recentemente, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira divulgou os resultados da primeira edição do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed). Os números são alarmantes: cerca de 30% dos cursos avaliados obtiveram desempenho considerado insatisfatório, e mais de uma centena de escolas poderá sofrer medidas de supervisão e restrição. O próprio Estado brasileiro reconhece, ainda que tardiamente, que uma parcela das faculdades de Medicina não forma médicos minimamente aptos.
Esses médicos recém-formados, com formação precária e treinamento insuficiente, acabam ocupando os postos mais sensíveis do sistema: emergências e atenção básica.
Locais que exigem alto grau de preparo técnico, maturidade emocional e capacidade de raciocínio clínico. Médico de posto de saúde não trata apenas “dor de barriga”; ele ocupa posição estratégica no cuidado longitudinal, na triagem de risco e na coordenação do cuidado.
Como esperar profissionais resolutivos se o próprio sistema forma médicos com déficit cognitivo, excessivamente dependentes de aplicativos, protocolos automáticos e inteligência artificial? Médicos baratos para gestores e intermediadores do trabalho médico, mas incapazes de realizar uma anamnese consistente sem apoio digital. O resultado aparece nos Conselhos Regionais de Medicina: crescimento de denúncias e processos envolvendo profissionais recém-formados, reflexo direto de um ensino deficiente.
Nada disso é novidade na história da educação médica. No início do século 20, os Estados Unidos enfrentaram problema semelhante. A resposta veio com o Relatório Flexner. Em 1910, o documento recomendou fechamento de escolas de baixa qualidade, vinculação obrigatória a universidades e hospitais de ensino, currículos baseados em ciência e avaliação rigorosa. O resultado foi claro: menos escolas, menos médicos — e médicos muito melhores.
O Brasil parece determinado a repetir o erro histórico que outros países já corrigiram. O médico barato, mal formado e produzido em massa não reduz custos: aumenta o gasto público, eleva o risco assistencial e compromete a segurança do paciente. É urgente interromper essa lógica predatória: formar menos médicos, fechar faculdades sem estrutura, limitar vagas e vincular a abertura de cursos à existência de hospitais e programas de residência médica.
Mais urgente é que a sociedade compreenda que não basta “ter médico”. Atendimento de qualidade exige estrutura, equipes completas e profissionais bem formados. Sem isso, o que se multiplica não é o cuidado — é o dano. A pergunta permanece atual e incômoda: mais é melhor?
Eduardo Neubarth Trindade
Vice-presidente do Cremers




