Dr. Eduardo Neubarth Trindade
A Medicina brasileira vive um processo perigoso de banalização. Vende-se a ideia de que ampliar indiscriminadamente cursos, multiplicar vínculos frágeis e submeter o ato médico à lógica de metas seria modernização. Não é. Em muitos casos, trata-se apenas da transformação da saúde em negócio — e de um negócio altamente lucrativo para quem intermedeia, controla ou explora o trabalho médico.
A abertura desenfreada de faculdades de Medicina, intensificada desde 2013, beneficiou sobretudo grupos educacionais. O crescimento das vagas privadas foi muito superior ao das públicas, sem a correspondente garantia de hospital de ensino, leitos, preceptoria e campos de prática. O resultado começa a aparecer de forma objetiva: o Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) expôs desempenho insatisfatório em parcela relevante dos cursos, mostrando que a expansão quantitativa não foi acompanhada da necessária qualidade formativa. Formar mais, sem formar bem, não democratiza a Medicina; a precariza. E quem paga a conta, mais cedo ou mais tarde, é o paciente.
No mercado de trabalho, a pejotização e os contratos temporários fragilizaram a relação entre médico, serviço e comunidade, especialmente no setor público. Onde deveria haver vínculo, continuidade e responsabilização sanitária, instala-se a rotatividade. O médico passa a ser tratado como peça substituível; o paciente, como número; e a comunidade perde a referência de quem a acompanha, conhece sua história e responde por seu cuidado.
Na saúde suplementar e também no SUS, o cenário se agrava quando o médico é espremido por metas, protocolos impostos e restrições administrativas que corroem sua autonomia. Cresce o poder dos intermediadores do trabalho médico — operadoras, terceirizadas, plataformas e gestores — e diminui o espaço da decisão clínica centrada no paciente.
A pergunta, então, é simples: quem se beneficia da banalização da Medicina? Certamente não é a sociedade.
Médico. Vice-presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio Grande do Sul (Cremers). Professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs).




