Os casos de feminicídio que estão flagelando o Rio Grande do Sul não matam apenas as mulheres, vítimas de uma estrutura machista, de um sistema escolar em que o respeito e o convívio social ruíram, de famílias disfuncionais, da pobreza cultural e econômica. Esses crimes matam também a infância e a vida emocional dos filhos dessas mães assassinadas – muitos dos quais presenciaram o assassinato das mães.
Nos meus 30 anos como psiquiatra especialista em crianças e adolescentes, atendendo e sendo preceptora da residência médica do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (que atende apenas pacientes do SUS), já me deparei com todo o tipo de barbárie cometida contra esses pacientes. Já atendi filhos de estupro, vítimas de abuso sexual, de maus tratos físicos e psicológicos, autistas graves, deficientes cognitivos.
A psiquiatria não trabalha no salão de espelhos do palácio: ela trabalha no calabouço. Vemos o pior do ser humano. E, na psiquiatria infantil, vemos o sofrimento e a devastação emocional de crianças que podem se tornar adultos aniquilados psiquicamente.
Ao longo dos anos, aprendi que os filhos são das mães. Elas são a única possibilidade que essas crianças – a maioria, vítimas de pais ou homens abusadores – têm de superar traumas, de ter acolhimento, cuidado e amor.
Quem acolherá as crianças cujas mães são vítimas de homens que se sentem donos das mulheres? De homens que se acham no direito de matar essas mulheres quando elas se sentem exauridas dos maus tratos a que são submetidas e decidem dar um basta no sofrimento?
Os órfãos de mães vítimas de feminicídio terão a possibilidade de serem acompanhados por psiquiatras e psicólogos? Ou a possibilidade de ter um futuro com saúde mental também será assassinada?
Com o descaso dos gestores públicos com a saúde mental da população, é muito provável que essas crianças só aumentem a fila dos desassistidos.
Dra. Silzá Tramontina
*Psiquiatra e conselheira do Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio Grande do Sul (Cremers)




