Confira o artigo do vice-presidente do Cremers, Eduardo Neubarth Trindade, publicado no jornal Tradição Regional, de Pelotas, desta sexta-feira (30).
Volta e meia reaparece o discurso de que falta médico no Brasil, especialmente no interior. Essa narrativa, repetida à exaustão, serve como justificativa para a abertura desenfreada de novas vagas e faculdades de Medicina, muitas vezes sem a mínima estrutura necessária. Os dados mais recentes mostram que essa explicação é falsa e perigosa.
O Brasil já forma médicos em número suficiente. O problema não é a quantidade de profissionais, mas a má distribuição e, sobretudo, a qualidade da formação. O resultado do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) escancarou uma realidade incômoda: não adianta abrir curso de Medicina em qualquer esquina, sem hospital de ensino, sem professores qualificados e sem campo de prática adequado. Isso não forma bons médicos e tampouco resolve os vazios assistenciais do interior.
Criou-se a ilusão de que basta instalar uma faculdade para que médicos se fixem na região. A experiência mostra exatamente o contrário. Cursos frágeis geram profissionais inseguros, mal preparados e que, assim que possível, buscam centros maiores para complementar sua formação ou simplesmente abandonar a região.
Fixar médicos de qualidade no interior exige soluções estruturais, e não atalhos. O que realmente funciona é carreira, concurso público, remuneração compatível, estabilidade e condições dignas de trabalho. Nenhum profissional, seja médico, professor ou engenheiro, se estabelece de forma duradoura onde falta infraestrutura, apoio diagnóstico, segurança e perspectiva de crescimento profissional.
Além disso, o sistema de saúde precisa funcionar em rede. Não é razoável exigir que todo município tenha todos os especialistas. Mas é obrigação do Estado garantir que todo paciente tenha acesso ao especialista quando necessário, de forma organizada, ágil e resolutiva. O que não pode existir é a “ambulancioterapia” ou a “micro-ônibus-terapia”, em que o paciente peregrina quilômetros em busca de atendimento que deveria ser articulado regionalmente. O compromisso só se cumpre com planejamento, regulação eficiente e valorização dos profissionais. Insistir na multiplicação irresponsável de faculdades é tapar o sol com a peneira. O interior do Rio Grande do Sul precisa de médicos bem formados, respeitados e com condições reais de permanecer onde são mais necessários.




