O Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio Grande do Sul (Cremers) promoveu, nesta terça-feira (26), o seminário ‘Enfrentamento ao Feminicídio e à Violência contra a Mulher’, no auditório da autarquia, em Porto Alegre. A iniciativa reuniu profissionais da saúde, representantes da segurança pública, do Ministério Público, da Assembleia Legislativa, da Câmara de Vereadores e da sociedade civil para discutir estratégias de proteção e acolhimento às mulheres vítimas de violência.
O evento foi motivado pelo cenário crítico de violência de gênero no estado. De acordo com a Secretaria de Segurança Pública do RS (SSP-RS), foram registrados 80 feminicídios em 2025 e, até maio de 2026, já são contabilizados ao menos 35 casos. Em média, uma mulher é assassinada a cada dois dias no Rio Grande do Sul.
Medicina como linha de frente na proteção
Na abertura, o presidente do Cremers, Régis Angnes, destacou a responsabilidade da classe médica no enfrentamento à violência. “Os médicos ocupam uma posição única na rede de proteção às mulheres. Somos frequentemente o primeiro e, às vezes, o único contato que a vítima tem com um serviço que poderia salvá-la. Um consultório médico pode ser um refúgio, uma oportunidade de ruptura com o ciclo de violência, um caminho para a segurança”, afirmou.
Também fizeram parte da mesa de abertura a subprocuradora-geral de Justiça do Ministério Público do RS, Alessandra Bastian da Cunha, e a secretária Municipal de Saúde Adjunta, Carolina Weber.
Angnes também ressaltou que muitas das mortes poderiam ter sido prevenidas. “Muitas dessas mulheres passaram por consultórios médicos, por emergências, por unidades de saúde antes de serem assassinadas. E, em muitos casos, os sinais de violência não foram identificados. Ou foram, mas não houve encaminhamento adequado, ou houve medo de intervir”, pontuou.
Painéis debateram rede de proteção, saúde mental e responsabilização
O primeiro painel, “O cenário da violência e a rede de proteção”, foi moderado pela segunda-secretária do Cremers, Laís Leboutte, pela conselheira Fernanda Ronchetti e pela vereadora Comandante Nádia. Participaram a promotora de Justiça Luciana Casarotto, o coordenador estadual das Patrulhas Maria da Penha, tenente-coronel Cristiano Moraes, a secretária da Mulher do Estado, Ana Costa, a deputada estadual Delegada Nadine Anflor, e a titular da 1ª Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam) de Porto Alegre, delegada Thaís Dequech. O debate abordou a realidade da violência contra a mulher, a responsabilização dos agressores, as políticas públicas estaduais e o funcionamento da rede de proteção estatal.
A seguir, advogada Victoria Pedrazzi apresentou os resultados da pesquisa “Sobre Eles por Elas”, desenvolvida pela Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (Unijuí), sobre o perfil de homens presos por violência contra a mulher nas regiões das Missões e Metropolitana, com o objetivo de subsidiar políticas de reeducação e prevenção da reincidência.
Na sequência, o painel “Os impactos na saúde mental e como a sociedade pode ajudar”, moderado pela conselheira do Cremers Silzá Tramontina, contou com o psiquiatra Nélio Tombini, a psicóloga Débora Coelho e a vereadora psicóloga Tanise Sabino. Foram discutidos traumas psicológicos decorrentes da violência, dependência emocional e o papel da sociedade civil na quebra do ciclo de agressão.
Por fim, o conselheiro do Cremers e médico de Família e Comunidade André Luiz da Silva apresentou recomendações práticas para que médicos atuem como agentes de proteção. As orientações incluem identificação de sinais de violência, acolhimento humanizado, documentação adequada dos casos e orientação às pacientes sobre a rede de apoio disponível.
Também participaram do evento os conselheiros do Cremers Maria Fernanda Detanico, Luciano Haas, Márcia Vaz, Mirela Jimenez, João Michelon e Enilde Guerra.
O seminário reforçou o compromisso do Cremers com a qualificação da assistência médica e a defesa dos direitos das mulheres, e está disponível no canal do Conselho no Youtube.
Texto: Clarice Passos
Edição: Viviane Schwäger




